Outubro 23, 2007

O dia em que Kamel preferiu não testar hipóteses


O professor Ali Kamel, diretor de jornalismo de Rede Globo, aquele que ensina que não existe racismo no Brasil (mas, segundo ele, pode vir a existir, caso o movimento negro continue a defender a política de cotas); que Bush fez bem em testar a hipótese da existência de bombas no Iraque e, por isso mesmo, bombardear e invadir aquele país; que a Globo errou por incompetência e não por má-fé no escândalo Proconsult, em 1982; que não manipulou desavergonhadamente a edição do último debate entre Lula e Collor na eleição de 1989; este Kamel, para justificar a cobertura que o Jornal Nacional fez do acidente com o Airbus da TAM em Congonhas, disse que eles apenas estavam “testando hipóteses”.


"A grande imprensa se portou como devia. Como não é pitonisa, como não é adivinha, desde o primeiro instante foi, honestamente, testando hipóteses, montando um quebra-cabeça que está longe do fim".

Mas nem sempre Kamel age assim, testando hipóteses. Por exemplo: no ano passado, às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais, a Globo recebeu do delegado Bruno as fotos do dinheiro apreendido pela Polícia Federal, no polêmico caso do dossiê. Embora dispusesse do material desde cedo, a Globo aguardou o JN para que a notícia pudesse ser mais espetacular.

Mas aí, às 18h50, acontece o terrível acidente envolvendo o Boeing da Gol e o jatinho da ExcelAire. A Globo recebeu a notícia, ainda incompleta e vaga, mas se ela fosse ao ar na mesma edição disputaria a atenção do público com a montanha de dinheiro. E aí, em vez de testar hipóteses, como no acidente da TAM, o que fez Kamel?


"As primeiras informações sobre o desaparecimento de um avião nos chegaram quando o JN já estava havia muito no ar (o telejornal teve início às 20h). Imediatamente, nossas equipes saíram à cata de informações, que eram escassas e sem confirmação. Seria um avião de passageiros que estava desaparecido ou atrasado? Ele era da Gol ou da Embraer? Ele sumiu em Mato Grosso, indo para Brasília, ou no Pará, indo para Manaus? Em nossas redações, foi aquela correria, mas todos tínhamos uma convicção: só poríamos a informação no ar quando tivéssemos certeza dela."

Por que agiu assim? O leitor quer testar hipóteses?

Do blog do Mello

Outubro 18, 2007

Livros - Ranhuras e rachaduras na pista da mídia

Prossegue a campanha anti-Lula na mídia através da tragédia do acidente em Congonhas. Enquanto isso, importante livro sugere a reflexão sobre a grande mídia que ela sempre se recusa a fazer.

Apesar de todos os indícios apontarem para problemas técnicos no airbus da TAM como as causas principais da tragédia de Congonhas, talvez aliados a alguma manobra infeliz por parte dos pilotos, prossegue intensa campanha contra o governo Lula em torno do acidente. Há sempre o “mas...” de prontidão. É verdade que o airbus tinha problemas, é verdade que Congonhas é um erro acumulado por vários governos, mas... a culpa é do governo Lula e ponto acabou.

É verdade que é verdade que nos últimos dias houve um estardalhaço em manchetes culpando os pilotos, que teriam feito manobras inadequadas na cabine do vôo 3054, o que inocentaria a companhia aérea e a construtora do avião. Mas assim mesmo fica cada vez mais claro que as condições de vôo e as de pouso do airbus em pista molhada eram inadequadas, que os problemas vinham de dias e também que há problemas sérios de manutenção porque as companhias aéreas praticamente só têm hangares de conserto em S. Paulo, e justamente em Congonhas. Além disso fica claro que eleger esse aeroporto como ponto principal de conexão foi um erro estratégico. Se erro houve por parte do governo Lula foi o de sempre, isto é, o de agir “quae sera tamen”, isto é, o de agir sim, mas tardiamente, sob a coação dos fatos e sob a coação, a que não responde de modo adequado, da grande mídia interessada em derruba-lo, alguns nela eleitoralmente, outros nem tanto, exigindo quase a deposição manu militari ou manu populari do governo impopular – para ela, grande mídia.

Para entender as razões desse ódio quase atávico e cromossômico da grande mídia pelo governo Lula, há um livro na praça, recentemente lançado, de leitura indispensável. Trata-se de “A mídia nas eleições de 2006”, com vários autores, organizado pelo professor Venício Artur de Lima, da Universidade de Brasília (Editora Fundação Perseu Abramo). Especialista no assunto, o professor Lima publicou em 2006 o livro “Mídia: crise política e poder no Brasil”, também publicado pela Editora Fundação Perseu Abramo.

No livro de 2006 o professor analisava o comportamento da grande mídia brasileira durante a crise política de 2005/2006. Apontava para um permanente “inconformismo anti-democrático” (pág. 46) por parte de muitos jornalistas da cobertura política na mídia brasileira. Esse inconformismo, apontava o professor, atingia não só a leitura da reação das classes populares no Brasil, diante da campanha diária contra o governo Lula em jornais e na tevê e rádio, como transbordava para a desqualificação das eleições que deram vitória ao candidato popular na Bolívia ou que eliminaram a preferida dos conservadores, como no Peru. Além disso o professor fazia longa análise da intimidade histórica da Rede Globo com o poder e sobre a estrutura do sistema brasileiro de mídia, título de um dos seus capítulos.

No livro organizado em 2007, Venício Lima organizou estudos dele e de mais 15 jornalistas, acadêmicos ou não, sobre o comportamento da mídia brasileira durante as eleições de 2006. Fica claro que a grande mídia brasileira dispôs-se a impedir a reeleição de Lula, assim como agora tenta desmoralizar mais uma vez o seu governo. Para tanto imaginou colocar ranhuras na pista na reeleição, não para garantir aderência ao avião do candidato, mas para gruda-lo no solo, impedindo que levantasse vôo. Fica claro, porém, que a campanha não deu certo, e o livro procura esmiuçar as causas tanto do ódio a Lula e a um governo popular quanto do seu fracasso em sua campanha. Não só o avião levantou vôo, como a pista da grande mídia apresentou rachaduras consideráveis, expondo um hiato enorme entre seus propósitos e a realidade da opinião pública majoritária exposta nas urnas em outubro de 2006, nos dois turnos da eleição presidencial.

Em sua introdução aos 15 outros artigos, o professor Venício Lima aponta as seguintes considerações/questões/conclusões:

1. “Houve desequilíbrio na cobertura jornalística dos candidatos, verificado por instituições independentes de pesquisa”. Claro que o desequilíbrio favorecia o candidato conservador, Geraldo Alckmin. O professor também aponta o conluio entre o delegado Edmilson, da PF, e jornalistas da Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo (e TV Globo) e Rádio Jovem Pan, “para acertar clandestinamente a versão a ser dada na divulgação das fotos” [do dinheiro apreendido com os petistas que iriam comprar o suposto dossiê anti-Serra]. Assinala o professor que “a cumplicidade dos jornalistas com o delegado foi inicialmente revelada em matéria da Agência Carta Maior” (pág. 19).

2. “Prevaleceu uma atitude de hostilidade ao candidato Lula entre os jornalistas da grande mídia”.

3. “Houve um 'descolamento' entre a opinião dominante na mídia e a opinião da maioria dos eleitores”.

4. “Os sites e blogs na internet aumentaram sua importância no debate eleitoral”.

5. “A mídia entrou na agenda pública de discussão”.

6. “A 'credibilidade' da grande mídia foi colocada em questão”.

7. Novas 'mediações' diminuíram o poder de influência direta da grande mídia.


Novidade neste campo de debate, o livro apresenta dois estudos sistemáticos sobre o papel da internete na campanha de 2006. E faz sua pergunta fundamental: “ o que fazer para avançar nas relações entre a mídia e o processo eleitoral? Como tornar essa relação mais equilibrada e democrática?”

Diante da atual “crise” aérea brasileira, cujas cores foram agravadas pela tragédia de Congonhas, esta é mais uma vez a pergunta que se coloca, uma vez que a sua politização mostra que não só a campanha de 2010 já começou, como também a de 2008, para as prefeituras, que estão na rota para o futuro do Palácio do Planalto. Aliás, essas preocupações e essas perguntas deveriam não só estar na pauta do jornalismo e da opinião pública como também na dos especialistas em comunicação do Palácio do Planalto.

Por Flavio Aguiar, publicado no portal da Agência Carta Maior em 2/08/2007

Outubro 03, 2007

BAND E GLOBO TÊM CONCESSÃO ILEGAL

Não é só a Record que faz um uso ilegal das concessões de rádio e TV em São Paulo [clique aqui para ler matéria]. As Organizações Globo, o Grupo Bandeirantes e o Grupo CBS também mantêm no município mais emissoras de rádio e TV do que o permitido por lei, violando um dos únicos mecanismos previstos na legislação brasileira para evitar a concentração dos meios de comunicação.

Como já noticiou este Observatório [veja dossiê publicado], os grupos Bandeirantes e CBS burlam tanto o Código Brasileiro de Telecomunicações (Lei 4.117/62), que prevê que a mesma pessoa não pode participar da administração ou da gerência de mais de uma concessionária, permissionária ou autorizada do mesmo tipo de serviço de radiodifusão (na mesma localidade), quanto o Decreto 52.795/63, que estabelece que a mesma entidade ou as pessoas que integram o seu quadro societário e diretivo não podem ser contempladas com mais de uma outorga do mesmo tipo de serviço de radiodifusão na mesma localidade.

Em São Paulo, Band e CBS possuem cinco emissoras em FM transmitindo para a capital, chegando a vender publicidade casada para as diversas emissoras. O Grupo Bandeirantes controla a Band FM, a Bandeirantes (que retransmite a programação da AM), a BandNews, a Nativa e a Sul América Trânsito. Já o grupo CBS (Comunicação Brasil Sat), dos irmãos Paulo e José Masci de Abreu, controla a Kiss, a Mundial, a Tupi, a Scalla e a rádio Terra.

Embora não constem no site do grupo, a Apollo, a pentecostal Deus é Amor e a Rádio Atual também são controladas pela família Abreu. As duas primeiras têm Paulo Masci de Abreu entre os sócios e como dirigente. Já a Rádio Atual tem como sócios José Masci de Abreu e mais dois familiares.

As Organizações Globo também mantêm duas emissoras AM em São Paulo, desrespeitando o limite de uma outorga por tipo de serviço por localidade. Além da emissora controlada pelo grupo no dial FM (CBN), a empresa da família Marinho controla, no AM, a CBN e a Rádio Globo. Tanto no AM quanto no FM a CBN ocupa as frequências destinadas à Rádio Excelsior, cujas outorgas estão vencidas desde 2003.

Televisão

Na televisão aberta, o Grupo Bandeirantes controla a Rede Bandeirantes, em VHF, e a Play TV (antigo Canal 21), em UHF, cujo conteúdo é produzido pela empresa Gamecorp. Os sistemas da Anatel – Agência Nacional de Telecomunicações indicam que as empresas têm proprietários diferentes, mas todos pertencentes à família Saad. Os mesmos sistemas apontam o mesmo endereço, no bairro do Morumbi, como sede das duas empresas. Além disso, tanto o website quanto o departamento comercial da Bandeirantes apresentam ambas as emissoras como pertencentes ao grupo. A Rede 21 Comunicações, razão social da Play TV, também está com a concessão vencida desde 2003.

A duplicidade de outorga do mesmo serviço da Band guarda pequena diferença em relação à Record/Record News. Enquanto a Record News tem outorga original em Araraquara, interior de São Paulo (apesar de sua programação ser gerada na capital paulista), tanto a Band quanto a Play TV têm outorga de geradora em São Paulo.

O procurador da República de Minas Gerais e membro do grupo de comunicação social do Ministério Público Federal, Fernando Martins, afirma que as irregularidades serão avaliadas pelo MPF e, uma vez comprovadas, serão tomadas as medidas cabíveis, sendo possível até ingressar com uma Ação Civil Pública para cassar as concessões. “Precisamos garantir que o direito à comunicação e os princípios constitucionais sejam preservados, mas ainda vamos estudar melhor a questão”, disse o procurador.

Responsável pela fiscalização das emissoras, o Ministério das Comunicações não se manifestou. Procurados pela redação, as Organizações Globo e o Grupo Bandeirantes também não se pronunciaram até o fechamento desta reportagem.

Da redação do Observatório do Direito à Comunicação - Rádio e TV
02.10.2007

Patrulha Ideológica

Recentemente a revista Veja junto com a Globo vêm travando uma guerra ideológica e patrulhamento dos livros didáticos que são distribuídos gratuitamente aos alunos pelos governos. A "denúncia" surgiu quando uma mãe disse que o livro da filha tinha conotações politico-ideólogicas marxistas e que isso ela não aceitava. A revista Veja, como era de se esperar, veio com a reportagem e a partir daí o diretor de "jornalismo" da Globo Ali Kamel se juntou ao coro anti-subversivo desses livros.
Os artigos de Kamel e de outros reacionários de plantão que acreditam no que ele e a Veja escrevem fez parecer que voltamos na era do macarthismo. O macarthismo ficou conhecido como a época em que o senador dos EUA Joseph McCarthy perseguia e denunciava qualquer um que ele achasse ter vínculo ou idéias que simpatizavam com o comunismo as quais eram chamadas de subversivas e que foi muito bem retratado no filme de George Clooney chamado Boa Noite Boa Sorte (Good Night Good Luck).

Kamel escreveu e pediu o cancelamento da distribuição dos livros de história que continham "erros" sobre assuntos como o período maoísta na China (o livro não dizia que Mao era responsável pelo assassinato de milhões de chineses), sobre o "sagrado" sistema capitalista e acusou o governo brasileiro de tentar doutrinar os alunos com tal ideologia esquerdista. A partir disso, o jornalista Luis Nassif entrou na discussão e apresentou a verdadeira intenção de Kamel que era a de favorecer a editora que pertence a Globo que teria perdido uma fatia dos milhões de reais que os governos destinam para a compra desses livros.

Vale lembrar que esse livro referido por Kamel fazia 10 anos que estava em circulação e que recentemente já teria sido reprovado e suspendido pela avaliação do MEC e de professores. Quem faz a seleção dos livros didáticos são o MEC e os professores das áreas referidas, portanto, não teria nenhuma interferência do governo na escolha, mas sim pura paranóia guerra fria de Ali Kamel.

Sou professor eventual de biologia da rede pública e já vi alguns livros que são distribuídos que continham muitos erros, mas se eu vou dar aula e os alunos possuem o livro, com certeza identificarei tais erros e corrigirei com os alunos. O mesmo vai ser feito pelos professores de história, pois se o livro tiver tais imprecisões históricas o professor vai saber corrigir isso com os alunos e pronto. Não precisa fazer tempestade em copo d´água como esta fazendo Kamel e seus patrulhas do CCC (comando de caça aos comunistas que existiu na época da ditadura brasileira) na imprensa. Qual será a verdade que Kamel quer que seja passada aos alunos da rede pública? Vai ver seria melhor os professores de história e geografia deixarem de lado esses livros para usar a revista Veja e o jornal O Globo onde Ali Kamel escreve suas asneiras, na sala de aula.

Não sei o porque do alarde de Kamel e outros com medo de isso "contaminar" a mente dos alunos e como ultimamente uma escritora aqui de Piracicaba escreveu que o "mal já foi feito". Que mal seria esse? Seria o mal de ter alunos contestadores do sistema tornando-os subversivos?
Garanto que esses 10 anos que o livro circulou nas escolas, não se formou grupos de estudantes Maoístas revolucionários tentando acabar com o sistema capitalista e nem fez aumentar a filiação do partido comunista no Brasil. Assim os alunos se interessassem e lêssem os livros com o intuito de formar uma ideologia, pois quem sabe assim não teríamos alunos tão apáticos como hoje em dia.

Enfim, essa discussão ainda esta dando o que falar e nada vai adiantar mais uma vez a imprensa vir com mais essa retórica anti-esquerda que adota diariamente para também tentar interferir no processo educacional tentando doutrinar até os professores com essa paranóia.