
Não tenho nada contra denúncias de caixa 2 ou de corrupção – nem poderia, uma vez que o viés crítico, a tão propalada eterna vigilância e as conseqüentes denúncias, que dela advém, são posturas essenciais/inerentes ao bom jornalismo e é, indubitavelmente, um primeiro passo para a correção de falhas do nosso sistema político, dos desvios de conduta dos homens públicos e de rumos dos governos. Mas essas críticas e denúncias devem atingir a todos indiscriminadamente – à esquerda e à direita, governo e oposição.
E esse é apenas um primeiro passo. Os passos seguintes, desgraçadamente quase sempre sem a firmeza e competência necessárias, devem, assim determina a Lei, ficar a cargo da polícia, do Ministério Público e da Justiça. A Justiça, como todos sabemos, é por demais lenta e suas decisões são para sempre postergadas nos meandros e estratégias que o Direito Processual propicia. Porém, não exatamente por isso, ou não exatamente como conseqüência disso [da morosidade da Justiça e das intrincadas miríades do Direito], a imprensa, nos dias de hoje, arvora-se o grande verdugo: investiga, denuncia e também condena, ao arrepio da lei e do Estado de Direito.
O que me causa estranheza e desconfiança, entretanto, e acima de tudo, é a seletividade das denúncias e a celeridade/açodamento do julgamento: prévio, precipitado, “definitivo”. Então cabem aqui algumas (muitas) perguntas inevitáveis. Por que as denúncias só atingem políticos da base aliada do governo Lula? Não houve caixa 2 nas campanhas de Serra, Aécio Neves e Alckmin – só para citar os nomes de ilustres presidenciáveis, de hoje e de ontem? Será que não há (ou houve) corrupção nos governos desses senhores? Por que então não se investiga essas gestões? Por que não saem, nos jornais e revistas, manchetes alardeando possíveis crimes por eles cometidos? Ou eles não cometeram seus pecados?
Por que então existem cerca de sessenta e nove pedidos de instalação de CPI para investigar denúncias, devidamente lastreadas em provas ou fortes indícios, de malversação do dinheiro público e/ou improbidade no governo de Geraldo Alckmin barrados na Assembléia Legislativa de São Paulo? E as fotos de Serra entregando ambulâncias aos deputados “sanguessugas”, foram forjadas? E o dossiê Vedoin/Serra/Barjas Negri – lembram-se dele? –, também forjado? E aquele esquema, que, supõe-se, foi o embrião, a matriz do “valerioduto”, e que irrigou as contas da campanha de Eduardo Azeredo (do PSDB) ao governo de Minas Gerais em 1998? E a lista de furnas? E a planilha do Bresser detalhando recursos “por fora” da campanha de FHC? E a denúncia do milionário caixa 2 do carlismo na Bahia, estampada e detalhada em várias matérias da revista CartaCapital – e, para variar, devidamente silenciada pela grande imprensa? Pelo visto, os esquemas de caixa 2 de uns são mais criminosos que os de outros. Curiosamente, não se percebe o mesmo empenho da imprensa em investigar, denunciar e julgar quando se trata de políticos do PSDB e do DEM (ex-PFL). Por que será? A imprensa não deveria ter compromisso com a imparcialidade, com o pluralismo e a verdade factual?
Não acredito em duendes, porém sei de muita gente que “acredita”, seja por mero modismo, fantasia ou ainda como uma espécie de alegoria de uma inocência perdida. Também não creio em bruxas, curupira, mula sem cabeça e outros entes do imaginário popular. Da mesma forma, também não acredito na pureza e no falso moralismo das vestais de bordel da imprensa tupiniquim. Pois há muito percebo e compreendo o por quê da “seletividade” de seu “denuncismo” estrepitoso, calhorda, oportunista e de sua ética canhestra, conveniente.
Insisto nas incômodas perguntas: por que somente as denúncias contra os políticos do PT e do governo Lula merecem destaque na mídia e são repisadas, requentadas e reiteradas até a exaustão? Por que só os esquemas de caixa 2 do PT e dos partidos aliados são investigados (e previamente condenados)? Isso sem falar, claro, em algumas denúncias absurdas – como os dólares de Cuba e sobre a “periculosidade” do irmão do presidente (supostamente, um ardiloso lobista). Por que, só agora, caixa 2 tornou-se escândalo nacional? Por que aqueles partidos que servem, desde sempre, diligentemente, aos donos do poder recebem tratamento diferenciado da mídia? Não seria por que a mídia, hipocrisia à parte, está a serviço dos donos do poder e dos partidos que lhes representam e servem de esteio?
Insisto a bater na mesma tecla e a defender a mesma tese, não completamente só, mas na boa companhia de jornalistas como Mino Carta, por exemplo: não há provas de que houve o tal “mensalão” – tal “fenômeno” não é sequer verossímil. Os recursos “não contabilizados”, ao que tudo indica, serviam para honrar gastos de campanha. O que ocorreu, como já disse em textos anteriores, foi o secular esquema de caixa 2, agora, mas só agora, denunciado e investigado com a rigidez necessária – e também com direito às pirotecnias e fumaças de todo espetáculo midiático. Porém, devidamente embalado para consumo fácil, tipo “fast food”, com nomenclaturas de fácil assimilação pelas massas (“mensalão”), e revestido por uma aura de indisfarçável falso moralismo e hipocrisia.
Esclareço: não, prezado leitor. Não pretendo aqui justificar os desmandos e crimes de uns pelos dos outros, proteger uns e outros. Mas exigir que se investigue, critique e denuncie a todos, de modo imparcial e justo. A lei deve atingir a todos, com justiça e isenção, independentemente de filiação ou coloração partidária.
Por fim, respondendo a pergunta que intitula esse artigo: as denúncias são seletivas e reiteradas por que visam, tão somente, fragilizar, desestabilizar e, por fim, interditar o governo de Luis Inácio Lula da Silva – e, por isso, a imprensa é, de fato, “conservadora e golpista” como diz, diuturnamente, Paulo Henrique Amorim, em seu Conversa Afiada. E isso não é, como pretendem os sacripantas e sabujos encastelados na grande imprensa, mera e fabulosa “teoria da conspiração” – como, aliás, deixam evidentes argumentos aqui esgrimidos.
Se houvesse ainda algo de sério, ou, ao menos, boas intenções na mídia brasileira, quase que totalmente dominada pelas oligarquias e pelos coronéis da política (daí não poderia sair boa coisa mesmo), ela certamente estaria do lado dos homens de bem desse país. E estaria, com a mesma força e denodo com que hoje divulga denúncias e ataques ao governo Lula, veiculando também denúncias que envolvem “o outro lado” e defendendo uma ampla reforma política que estabelecesse, dentre outros mecanismos, o financiamento público de campanha e a fidelidade partidária. O resto é diversionismo/ilusionismo golpista com o indefectível molho de hipocrisia.
Lula Miranda é poeta, cronista e secretário de Formação para a Cidadania do Sindicato de Trabalhadores em Editoras de Livros de São Paulo.